'Transferências em massa de pacientes seriam incontroláveis': A crise financeira do sistema de saúde pode levar ao colapso do sistema de saúde.

O sistema de saúde colombiano enfrenta uma crise financeira sem solução à vista, pelo menos a curto prazo. As Entidades de Promoção da Saúde (EPS), que por quase três décadas foram o principal mecanismo para garantir o atendimento a milhões de colombianos, estão atualmente passando por uma crise que deixou de ser um problema de balanço para se tornar uma ameaça real à sustentabilidade do modelo e do atendimento prestado aos colombianos.
O último relatório da Así Vamos en Salud confirma o que os pacientes já estão vivenciando em primeira mão: a crescente dificuldade de acesso a consultas médicas, atrasos na entrega de medicamentos, o fechamento de serviços hospitalares e o aumento exponencial de processos judiciais. O panorama é sombrio: no primeiro semestre de 2025, os EPSs acumularam passivos de US$ 29,6 trilhões, enquanto seus ativos mal chegam a US$ 18,1 trilhões. Em outras palavras, as dívidas excedem o suporte financeiro disponível em 64%.
Além disso, o patrimônio líquido negativo do setor disparou de -US$ 550 bilhões em 2022 para -US$ 11,4 trilhões em 2025, o que significa que a insolvência técnica não é mais um risco futuro, mas sim uma realidade. "Quando uma entidade não possui ativos suficientes para cobrir seus passivos, ela entra em insolvência, e é exatamente isso que estamos vendo no setor de EPS. O problema não é abstrato: ele impacta diretamente a capacidade de pagamento por serviços e tecnologias de saúde e, portanto, o atendimento aos pacientes", explica Augusto Galán, diretor da Así Vamos en Salud.
O relatório destaca um fator adicional: a alta concentração de mercado. Das 23 EPSs que reportaram informações em 2025, sete delas representam 80% dos ativos e 74% dos passivos. Em outras palavras, um pequeno número de entidades administra os recursos e a composição de mais de 26 milhões de colombianos.
Para Galán, esse cenário representa um risco sistêmico: “Se uma dessas EPS falir, o impacto não será isolado, mas generalizado. Estamos falando de milhões de membros e centenas de clínicas e hospitais que dependem de seus pagamentos. Transferências em massa de pacientes seriam quase impossíveis, porque nenhuma EPS tem capacidade operacional e financeira para recebê-los. Isso sobrecarregaria a capacidade do sistema.”
O alerta é claro: o eventual fechamento de uma grande EPS poderia se tornar uma crise humanitária e administrativa, não só pela dificuldade de transferência de associados, mas também pelo risco fiscal que representaria para o Estado, que teria que responder com liquidez imediata e reorganizar massivamente a prestação de serviços.
A incerteza é agravada por um fato que os especialistas descrevem como preocupante: desde 2024, a Nueva EPS, que representa quase 24% das afiliadas do país (pouco mais de 11 milhões de pessoas), não divulga demonstrações financeiras. Seu último relatório, de 2023, registrava ativos de US$ 6 trilhões e passivos de US$ 5,5 trilhões.
Para Galán, essa falta de transparência é crucial: "Não conhecemos a verdadeira situação financeira deles, e essa falta de transparência nos impede de entender a verdadeira magnitude do problema. O estado do sistema não pode ser compreendido sem dados do maior EPS do país."

A crise do EPS já se reflete em ações judiciais, reclamações e fechamento de serviços. Foto: Arquivo/EL TIEMPO
Embora os números revelem a deterioração financeira, os colombianos sentem as consequências em suas vidas cotidianas. Entre 2022 e 2025, petições, reclamações e reivindicações aumentaram em mais de 100%, assim como as reivindicações por serviços de saúde.
"Tudo isso impacta a pontualidade do atendimento e a entrega dos medicamentos. É por isso que as reclamações e ações judiciais estão aumentando, os serviços estão sendo interrompidos e há barreiras crescentes que, em última análise, se traduzem em uma piora do estado de saúde da população e também em um aumento dos gastos privados", afirma Ana María Vesga, presidente da Acemi, o sindicato da EPS.
Vesga descreve um sistema que continua funcionando, mas a um custo cada vez maior para os usuários: “O sistema administra quase 100 bilhões de pesos por ano. Isso significa que não para de funcionar da noite para o dia. Mas a inadequação e a ineficiência fazem com que nem todos os serviços sejam cobertos, ou que sejam cobertos parcialmente ou com atrasos. É isso que os cidadãos estão vivenciando.”
A raiz do problema, concordam os especialistas, reside no financiamento insuficiente. O relatório revela que, embora as receitas operacionais do UPC tenham permanecido estagnadas em cerca de US$ 36 bilhões, os custos médicos têm crescido de forma constante, atingindo também US$ 36 bilhões em 2025, além de US$ 2,5 trilhões em despesas administrativas. O resultado: prejuízos operacionais de -US$ 2,4 trilhões em 2025.
“O financiamento para o UPC e os orçamentos máximos não tem sido suficiente. O governo tem afirmado teimosamente que o sistema é bem financiado, mas as evidências mostram o contrário. Até mesmo o Tribunal Constitucional ordenou uma revisão desses ajustes a partir de 2021, e essa instrução ainda não foi seguida”, ressalta Galán.
A taxa geral de acidentes — ou seja, o valor que os EPSs gastam em relação à sua renda — ultrapassou 100% em todos os anos analisados, chegando a 104% em 2025. No relatório, para cada 100 pesos que ganham, os EPSs gastam entre 101 e 104.

Nueva EPS tem atualmente mais de 11 milhões de membros. Foto: Luis Lizarazo García. Arquivo EL TIEMPO
Embora os EPSs sejam os mais afetados pela crise, Vesga insiste que a sustentabilidade do sistema é uma questão de responsabilidade compartilhada. "Não há uma medida única. Os prestadores devem buscar eficiência e evitar desperdícios; as seguradoras devem aprimorar seus métodos de contratação e aprofundar a auditoria; os profissionais de saúde devem prescrever de forma adequada e racional; e os pacientes também são chamados a usar os serviços com responsabilidade."
Mesmo assim, o líder sindical reconhece que, sem um ajuste estrutural no financiamento, qualquer esforço será insuficiente. “A sustentabilidade é o resultado de recursos suficientes e bem aplicados. Esse é o desafio que nosso sistema e todos os sistemas ao redor do mundo enfrentam: conciliar gastos infinitos com recursos finitos.”

Grupos de trabalho sobre a UPC. Foto: Mauricio Moreno
A discussão em torno da Unidade de Pagamento por Capita (UPC) é central. O Ministério da Saúde está atualmente conduzindo mesas-redondas técnicas para revisar seus cálculos, mas os sindicatos estão céticos quanto aos resultados. “A metodologia permitiu mostrar a realidade dos gastos do sistema: maior frequência de uso, maior gravidade e maiores taxas de acidentes. Veremos se essa informação será levada em consideração em um exercício real de ajuste. Ainda é cedo para saber, mas esperamos que sim, porque o próprio Governo já percebeu que o dinheiro não é suficiente”, alerta Vesga.
Galán, por sua vez, acrescenta que é necessária uma dupla abordagem: medidas imediatas para garantir liquidez e ajustes de médio e longo prazo para garantir a sustentabilidade. “Estamos diante de um problema estrutural. O sistema precisa de recursos suficientes, mas também de uma gestão técnica responsável. O que está em jogo não é a contabilização dos EPSs, mas o direito à saúde de milhões de colombianos.”
De qualquer forma, a deterioração do EPS não é um problema que possa ser adiado. Os efeitos já estão sendo sentidos no fechamento de unidades de emergência, pediátricas, neonatais e de terapia intensiva materna, e no cancelamento de contratos hospitalares, como noticiou este jornal. "Se a falta de financiamento não for corrigida, a crise continuará se agravando, e veremos mais fechamentos de serviços e, infelizmente, maiores riscos à vida dos pacientes", insiste Galán.
Jornalista de Meio Ambiente e Saúde
eltiempo