Como, e a que custo, o Canadá poderia alcançar os gastos de defesa da Polônia?

Houve um momento particularmente marcante na semana passada em Varsóvia, quando o primeiro-ministro Mark Carney renovou sua amizade com o polonês Donald Tusk, um momento que capturou sutilmente as escolhas difíceis que o Canadá provavelmente enfrentará em um futuro não muito distante.
Carney foi sincero em seus elogios à adesão sincera e entusiasmada do país do Leste Europeu às metas de gastos com defesa da OTAN e da aliança ocidental.
"Aprendemos muito com o primeiro-ministro e com seu governo, inclusive sobre a importância de fazer toda a nossa parte na OTAN", disse Carney.
Foi um comentário fora do roteiro, mas revelador, sobre a diferença entre a Polônia e o Canadá no que diz respeito aos gastos com defesa.
Levaremos alguns anos para atingir os níveis de comprometimento da Polônia. Mas é possível, e assumimos esse compromisso. Quadruplicaremos nossos gastos com defesa entre agora e o final da década.

Alguns anos é pouco. Varsóvia superou o antigo patamar de gastos da OTAN, de 2% do PIB, em 2022. Ottawa espera chegar lá até a próxima primavera.
A projeção é que a Polônia gaste 4,7% do PIB em defesa neste ano — tornando-se o país que mais gasta na OTAN, com um orçamento anual de defesa equivalente a US$ 45 bilhões.
Mas o que sacrificou para chegar lá? E é um modelo que o Canadá deveria, ou poderia, imitar?
Durante as eleições federais da primavera passada, os liberais prometeram reconstruir a base militar e industrial de defesa do país, mas evitaram cuidadosamente os detalhes de como e a que custo.
Detalhes, você pergunta? Aguardem a nova agência de compras de defesa, nos disseram.
O Canadá abraçou a meta de aumento de gastos com defesa da OTAN, inspirada por Trump, para cinco por cento do PIB (3,5 por cento em gastos militares diretos e outros 1,5 por cento em infraestrutura de defesa) na próxima década.
O custo? Até US$ 150 bilhões por ano.
"O ponto de partida da Polônia já é muito, muito diferente do nosso", disse Catherine Godin, embaixadora do Canadá na Polônia, que foi questionada durante a visita de Carney sobre os esforços de rearmamento do país do leste europeu.
A Polônia — por fazer fronteira com o enclave russo de Kaliningrado — fez uma escolha política consciente em relação às prioridades de gastos, disse ela. A Polônia também compartilha uma longa fronteira com a Bielorrússia, uma aliada próxima da Rússia.
"Saúde e educação vêm em segundo lugar, atrás de segurança e defesa, algo que não conseguimos compreender em nosso país. Seria uma conversa muito diferente. Então, para aprender com eles, certamente eles colocam isso no topo de suas prioridades. Precisaríamos de um consenso canadense para podermos fazer isso da mesma forma."
E é aí que está o problema.
Embora o público em geral tenha sido a favor do aumento dos gastos com defesa, as compensações não ficaram claras.
Escolhas difíceis no horizonteO orçamento federal de outono pode muito bem ser um divisor de águas na maneira como o país gasta dinheiro, e o público pode ser solicitado a aceitar escolhas difíceis.
Carney já ordenou que todos os departamentos federais, com exceção da defesa, encontrem economias de 15% em seus orçamentos.
No final da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte, em junho, o primeiro-ministro insistiu que a construção da base industrial de defesa do Canadá não é um exercício de escolha entre uma coisa ou outra.
"Não estamos em uma negociação. Não estamos fazendo sacrifícios para conseguir isso", disse Carney.
Em outras palavras, haverá mais [produção de defesa] no Canadá. Mais produção ajudará a fortalecer nossa economia e, ao mesmo tempo, melhorará nossa defesa, e colheremos os benefícios.

O primeiro-ministro reiterou sua promessa de campanha de fazer a economia crescer e equilibrar o orçamento operacional do país dentro de três anos.
Por sua vez, o Ministro da Defesa, David McGuinty, disse acreditar que o público entende a seriedade do que estamos enfrentando como nação além de nossas fronteiras.
"Acho que os canadenses sabem que o cenário mudou, que a geopolítica está mudando", disse McGuinty.
Analistas de diferentes think tanks europeus notaram como a Polônia está se rearmando mais rápido do que consegue encontrar soldados.
Ela vem comprando equipamentos militares dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, onde linhas de produção intensas continuam a produzir aviões de guerra, tanques, veículos blindados e navios de guerra em um ritmo que os fabricantes europeus estão tendo dificuldade para acompanhar.
Godin diz que foi mais fácil para a Polônia desenvolver a indústria de defesa do país porque, diferentemente do Canadá, grande parte de sua indústria de defesa é estatal ou operada pelo Estado.
A produção de defesa está consolidada no Grupo Polonês de Armamentos (PGZ), que reúne mais de 50 empresas. Grande parte da base industrial foi herdada da época em que o país fazia parte do Pacto de Varsóvia da União Soviética, embora existam algumas empresas privadas dentro dessa estrutura.
A decisão da Polônia de continuar comprando dos Estados Unidos não é nem de longe tão controversa naquele país quanto é no Canadá.
Varsóvia garantiu US$ 4 bilhões em Financiamento Militar Estrangeiro (FMF) de Washington em julho para comprar equipamentos como helicópteros de ataque Apache, artilharia de foguetes móveis HIMARS e sistemas de defesa antimísseis Patriot.
É uma escolha política consciente que os principais líderes do país disseram estar sendo feita para manter a Polônia em uma posição amigável com o governo Trump.

O Canadá, por outro lado, está revisando sua principal compra de defesa de 88 caças stealth F-35 da gigante de defesa norte-americana Lockheed Martin.
Há outros projetos, como a compra de aviões de vigilância P-8 e HIMARS para o exército, que também podem ser politicamente desagradáveis para um eleitorado irritado que foi informado de que o Canadá pretende comprar seu equipamento militar em outro lugar.
Alan Williams, especialista em aquisições que chefiou o setor de compras do Departamento de Defesa no início dos anos 2000, destacou que, ao lidar com essa questão, o governo federal não pode perder de vista a missão, que é equipar os militares com os melhores equipamentos — sejam eles americanos, canadenses ou europeus.
"Como burocrata, meu objetivo seria: comprarei o melhor produto, não importa de onde ele venha", disse Williams.
"Se for dos EUA, não vou dizer não, porque há ódio por Trump. Eu compraria lá. Se o governo tiver uma estrutura política diferente para isso, eu a cumpriria. Essa é uma decisão deles, e é uma decisão política."
cbc.ca