Polestar 4: Entre o luxo nórdico e o tetris na bagageira

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A Polestar, que começou como a “divisão vitaminada” da Volvo e agora aventura-se a solo no mundo dos elétricos premium, decidiu lançar um SUV coupé que quer ser tudo: elegante, tecnológico e (supostamente) prático para famílias. Mas será mesmo?
Começando pelo que brilha: a versão Long Range Single Motor do Polestar 4 oferece 272 cv e um binário de 343 Nm, o que significa que pode deixar os miúdos colados ao banco sempre que o semáforo fica verde. A autonomia anunciada é de 620 quilómetros WLTP, o que, mesmo com o habitual desconto da vida real, chega para ir de Lisboa ao Algarve sem dramas — e ainda sobra para um desvio à praia da Comporta, só porque sim. O carregamento rápido de 200 kW também ajuda a manter a ansiedade sob controlo: 30 minutos bastam para levar a bateria dos 10% aos 80%.
No interior, o Polestar 4 aposta tudo no minimalismo escandinavo, com bancos elétricos, materiais vegan e um ecrã central de 15,4 polegadas que parece ter sido desenhado para impressionar sogras e geeks em igual medida.
O silêncio a bordo é quase monástico e o sistema de som Harman Kardon (com o pack Plus) é daqueles que faz até as viagens ao supermercado soarem a concerto privado — o som envolve, preenche e faz esquecer que a bagageira… bem, já lá vamos. É que, apesar dos 526 litros anunciados (incluindo um compartimento inferior digno de Tetris), a bagageira parece ter sido desenhada por alguém que nunca viajou com crianças, carrinhos, bicicletas ou, vá, malas de tamanho médio.
O espaço é curto (por conta do rebaixamento do chassi) para uma família que goste de levar a casa atrás. Fica a sensação de que a Polestar otimizou o conforto dos passageiros, mas esqueceu-se de que as pessoas também gostam de levar tralha. Para férias grandes, prepare-se para um curso intensivo de empilhamento ou para investir em barras de tejadilho.
Outro pormenor digno de nota — e de alguma ironia — é a chave. Não basta tê-la no bolso, como nos carros ‘normais’. Aqui tem de pousá-la num ponto exato da consola central, como quem joga ao ‘encaixa a peça’ na creche. E se não acertar à primeira, prepare-se para um arranque em modo zen, porque o carro não perdoa distrações. Prático? Nem por isso.
E depois há o retrovisor digital, uma inovação que mais parece saída de um filme de ficção científica, mas que, na vida real, tem dias. Sem vidro traseiro, tudo depende da câmara. Resultado: quando chove ou quando conduz à noite, a imagem perde qualidade e, nas tardes de sol a bater de chapa, o ecrã transforma-se num festival de reflexos. É moderno, mas nem sempre prático — sobretudo para quem gosta de espreitar para trás ‘à moda antiga’.
No capítulo da condução, o Polestar 4 é confortável, estável e suficientemente rápido para impressionar sem assustar. A suspensão, contudo, pode ser um pouco firme em estradas portuguesas mais ‘criativas’. Ainda assim, o isolamento acústico e a sensação de qualidade estão lá, dignos do segmento premium.
O preço, a partir de 68 mil euros, coloca-o num território competitivo face à concorrência germânica e americana, sobretudo se valorizarmos a autonomia, o equipamento de série e o design. Mas, convenhamos, por este valor, esperava-se uma bagageira mais generosa e menos jogos de paciência com a chave.
O Polestar 4 é assim o elétrico ideal para quem quer impressionar vizinhos, ouvir música como nunca e viajar com conforto. Para quem precisa de espaço para a tralha toda da família, talvez seja melhor levar a fita métrica antes de assinar o cheque ou o financiamento bancário.
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